Em resumo
Pode. Nenhuma lei impede que a mesma pessoa seja sócia e empregada da mesma empresa. O que decide não é o título, e sim como a relação funciona na prática: se a pessoa trabalha com subordinação, pessoalidade, habitualidade e salário, há vínculo de emprego, mesmo que ela tenha quotas; se participa das decisões, administra e corre o risco do negócio como dona, a relação é societária. Os tribunais decidem nos dois sentidos, conforme a prova.
Três perguntas sobre a sua sociedade
Pergunta 1 de 3
A sua empresa tem, ou vai ter, um sócio que também trabalha nela com carteira assinada?
A pergunta aparece sempre que um funcionário recebe participação. Ele continua com carteira assinada? Precisa pedir demissão? O que acontece com o FGTS? E, do lado da empresa, o receio é outro: dar participação a alguém pode criar um passivo trabalhista, ou, ao contrário, transformar em "sócio" alguém que continua sendo empregado?
Este artigo organiza as respostas. Os caminhos para dar participação a quem trabalha na empresa estão em participação para funcionários, e o modelo de partnership, que transforma profissionais em sócios, em partnership. Se você quer estruturar a entrada de um funcionário na sociedade, veja como funciona o trabalho de vesting e partnership.
O que a lei diz
A CLT considera empregado toda pessoa física que presta serviços de natureza não eventual a um empregador, sob a dependência deste e mediante salário (art. 3º). Os elementos são conhecidos: pessoalidade, não eventualidade, onerosidade e subordinação.
Nada na lei exclui o sócio dessa definição. Um sócio minoritário pode, ao mesmo tempo, prestar serviços subordinados à sociedade e ser empregado dela. E a relação de emprego é um contrato-realidade: o que vale é o que acontece de fato, e não o que está escrito nos documentos.
A mesma lógica funciona ao contrário. São nulos os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a aplicação da CLT (art. 9º). Colocar alguém no contrato social para mascarar uma relação de emprego não afasta o vínculo.
Subordinação ou affectio societatis
A distinção entre sócio e empregado costuma ser explicada por dois conceitos.
Subordinação jurídica, característica do emprego: a pessoa trabalha sob o poder de direção de outra, que determina como, quando e onde o trabalho é feito, e recebe salário independentemente do resultado do negócio.
Affectio societatis, característica da sociedade: a disposição de participar do empreendimento como sócio, contribuindo para o objetivo comum, participando das decisões e dividindo os resultados, positivos ou negativos.
Quando a subordinação predomina, a relação tende a ser de emprego, ainda que a pessoa tenha quotas. Quando predomina a participação como dono, tende a ser societária.
Os sinais que pesam
| Aponta para emprego | Aponta para sociedade |
|---|---|
| Recebe ordens e tem a forma de trabalhar determinada por outros | Participa das decisões da empresa |
| Tem horário controlado e metas impostas | Organiza o próprio trabalho |
| Recebe valor fixo mensal, independentemente do resultado | Recebe pró-labore e lucros, que acompanham o resultado |
| Não tem acesso às contas e aos números da empresa | Tem acesso às contas e às informações da sociedade |
| Participação societária ínfima e sem direitos efetivos | Participação relevante, com direitos exercidos na prática |
| Pode ser desligado como qualquer empregado | Só sai conforme as regras societárias |
Nenhum sinal decide sozinho. A análise é feita pelo conjunto, e a prova do que acontece no dia a dia costuma pesar mais do que qualquer documento.
O que os tribunais já decidiram
A jurisprudência mostra que a resposta depende dos fatos. Alguns exemplos públicos, descritos sem os nomes das partes:
Profissional incluída como sócia de serviço
no contrato social de um escritório, mas trabalhando com pessoalidade, habitualidade, onerosidade e subordinação: o vínculo de emprego foi reconhecido, e o TST rejeitou o recurso do escritório. A sociedade foi considerada uma forma de mascarar o contrato de trabalho.
Sócio de um salão de beleza
que alegava ser, na verdade, empregado: sem prova de subordinação, o vínculo foi negado, e a decisão foi mantida pelo TST.
Antigo dono que vendeu a empresa
e continuou trabalhando nela como gerente subordinado, com 25% das quotas: o vínculo foi reconhecido a partir da venda.
Sócia minoritária, com 2,5% do capital,
que alegava subordinação à sócia majoritária: o vínculo foi negado, porque ela participava das decisões, tinha acesso às contas e recebia o mesmo pró-labore da outra sócia.
Sócia minoritária que era diretora
de empresas de um grupo familiar: o vínculo foi negado, porque as provas mostraram autonomia e autoridade na empresa que dirigia.
Há também decisões reconhecendo que o sócio administrador pode ser empregado da mesma sociedade, quando os requisitos da relação de emprego estão presentes. O ponto comum a todos os casos é que o título não decide: a realidade decide.
O empregado eleito diretor
Uma situação específica tem orientação consolidada no TST. Quando um empregado é eleito para ocupar cargo de diretor, o contrato de trabalho fica suspenso, e o tempo desse período não conta como tempo de serviço, salvo se permanecer a subordinação jurídica inerente à relação de emprego (Súmula 269 do TST).
Na prática, se o empregado passa a ser diretor de verdade, com autonomia e poder de decisão, o contrato de trabalho fica suspenso enquanto durar o mandato. Se, apesar do título, ele continua subordinado, o contrato segue em vigor.
Pró-labore ou salário
A forma de remuneração acompanha a natureza da relação.
O sócio que trabalha na empresa recebe pró-labore, que é a remuneração pelo trabalho, e lucros, que remuneram o capital. Para a previdência, o sócio que recebe remuneração pelo trabalho na empresa é contribuinte individual.
O empregado recebe salário, com todos os direitos da CLT: férias, décimo terceiro, FGTS, aviso prévio e os demais.
Quem é sócio e empregado ao mesmo tempo recebe salário pelo trabalho subordinado e lucros pela participação no capital, e as duas verbas precisam ser tratadas separadamente. A distinção entre as formas de remuneração está em pró-labore ou distribuição de lucros.
Há uma particularidade para diretores: as empresas podem equiparar seus diretores não empregados aos demais trabalhadores para fins de FGTS (art. 16 da Lei 8.036/1990). É uma opção, e não uma obrigação.
Quando o funcionário entra na sociedade: três caminhos
1. Continua empregado e passa a ser sócio minoritário
É o caminho mais comum quando a participação é pequena e a função não muda. A pessoa continua com carteira assinada, recebendo salário, e passa a receber também, como sócia, a parte dos lucros que lhe cabe.
O cuidado principal é que os lucros não funcionem como salário disfarçado. Se a participação foi oferecida em troca de uma redução de salário, ou se os "lucros" são pagos em valores fixos, todo mês, como complemento de remuneração, a leitura de remuneração se fortalece.
2. Deixa de ser empregado e passa a ser sócio administrador
Quando a pessoa assume a gestão, com poder de decisão, a relação de emprego tende a perder a razão de ser. Nesse caso, o contrato de trabalho precisa ser encerrado ou suspenso, conforme a situação:
se a pessoa for eleita diretora,
o contrato pode ficar suspenso, na lógica da Súmula 269, e voltar a vigorar quando o mandato terminar;
se a relação de emprego for encerrada,
a forma de encerramento tem efeitos diferentes: dispensa sem justa causa, pedido de demissão ou acordo entre as partes (art. 484-A da CLT), cada um com consequências próprias sobre aviso prévio, multa do FGTS, saque do fundo e seguro-desemprego.
A forma de encerramento precisa refletir o que de fato aconteceu. Um pedido de demissão que, na realidade, foi uma decisão da empresa, ou o contrário, é o tipo de arranjo que costuma ser questionado depois.
3. Entra na sociedade por uma etapa intermediária
Muitas vezes, a entrada é gradual: a pessoa recebe uma opção de compra de quotas com vesting, continua empregada durante o período de aquisição e só depois passa a ser sócia. Durante esse período, nada muda na relação de trabalho, e a opção precisa ser desenhada para não funcionar como parte do salário. O tema está em vesting na Ltda.
Pró-labore: quanto e como decidir
Quando o funcionário passa a sócio administrador, o pró-labore substitui o salário. Três cuidados:
a decisão é dos sócios,
registrada em deliberação, e não uma simples troca de rubrica na folha;
o valor deve ser compatível com a função,
e não uma forma de reduzir encargos à custa da remuneração pelo trabalho;
pró-labore e lucros são coisas diferentes:
o primeiro remunera o trabalho, os segundos, o capital, e a proporção entre eles tem efeitos tributários e previdenciários que devem ser definidos com o contador.
O sócio empregado e o acordo de sócios
Quando a mesma pessoa é sócia e empregada, as duas relações podem terminar em momentos diferentes, e o acordo de sócios precisa prever isso.
Se o contrato de trabalho termina, a participação continua? A sociedade ou os sócios têm o direito de recomprar as quotas? Por qual preço, conforme o tipo de saída? E, ao contrário, se a pessoa deixa de ser sócia, o contrato de trabalho continua? Essas perguntas precisam de resposta escrita, na lógica de good leaver e bad leaver.
O que muda no contrato de trabalho ao entrar
Nada muda automaticamente. O contrato de trabalho e a participação societária são relações diferentes, com documentos diferentes.
Mas a entrada é o momento de revisar três pontos:
a função:
se a pessoa continua na mesma função, com a mesma subordinação, o contrato segue; se passa a administrar, o contrato precisa de tratamento;
a remuneração:
a participação não substitui salário, e o salário deve continuar compatível com a função;
a documentação:
o contrato de trabalho, o contrato social, o acordo de sócios e as deliberações sobre pró-labore precisam contar a mesma história.
Os riscos, dos dois lados
Para a empresa:
sócio de fachada:
incluir no contrato social alguém que continua trabalhando como empregado, sem participar das decisões, para reduzir custos trabalhistas;
pró-labore que esconde salário:
pagar como pró-labore o que, na prática, é salário de um trabalhador subordinado;
participação como remuneração:
oferecer quotas ou lucros em troca de salário menor;
encerramento irregular:
transformar a saída do emprego numa formalidade que não reflete a realidade.
Para a pessoa:
perder direitos sem perceber,
ao virar sócia administradora sem entender o que muda;
assumir responsabilidades de sócio,
como a solidariedade pela integralização do capital na limitada, sem saber;
ficar sem proteção,
se a relação societária for rompida sem regras de saída.
Um tema próximo, e que costuma aparecer junto, é o de quem entra "pelo trabalho": na limitada, a quota não pode ser paga com prestação de serviços, como explicado em sócio de serviço. E a leitura da participação como salário está em stock options e salário.
Quando o sócio também presta serviços como pessoa jurídica
Em algumas empresas, a pessoa que recebe participação trabalhava como prestadora de serviços contratada por meio de uma pessoa jurídica. Transformá-la em sócia não resolve a natureza da relação anterior: se ela trabalhava com subordinação, horário imposto e exclusividade, o risco de reconhecimento de vínculo existe, com ou sem quotas.
E, depois da entrada, manter o contrato de prestação de serviços em paralelo à condição de sócia pede cuidado redobrado: pagamentos fixos mensais pelo trabalho, somados à participação, podem reforçar a leitura de que a relação de trabalho continua subordinada. A entrada na sociedade é o momento de revisar a forma de remunerar o trabalho, com pró-labore, se a pessoa passar a administrar, ou com contrato de trabalho, se continuar subordinada.
O FGTS de quem vira sócio
Se a pessoa continua empregada, o FGTS continua sendo depositado sobre o salário, como antes. Os lucros recebidos como sócia não entram nessa base.
Se o contrato de trabalho é encerrado, o destino do saldo depende da forma de encerramento: na dispensa sem justa causa e no acordo entre as partes, há regras próprias de multa e de saque; no pedido de demissão, o saque não é liberado nessa hipótese.
Se a pessoa é eleita diretora com o contrato suspenso, os depósitos acompanham as regras da suspensão, e a empresa pode optar por equiparar o diretor não empregado aos trabalhadores sujeitos ao FGTS.
Como documentar
- 1
Defina a posição da pessoa:
sócia e empregada, sócia administradora ou beneficiária de opção durante o vesting.
- 2
Alinhe os documentos:
contrato de trabalho, contrato social, acordo de sócios e deliberações devem ser coerentes entre si.
- 3
Registre o pró-labore em deliberação,
se a pessoa passar a administrar.
- 4
Separe salário e lucros
na folha e na contabilidade.
- 5
Formalize o encerramento ou a suspensão do contrato de trabalho,
se for o caso, pela forma que corresponde à realidade.
- 6
Revise a promessa, se houver:
muitas entradas começam com uma promessa antiga, tema de promessa de participação.
Erros comuns
Achar que virar sócio encerra o emprego
automaticamente.
Achar que continuar empregado é incompatível
com ter quotas.
Transformar empregados em sócios de fachada
para reduzir custos.
Pagar salário como pró-labore,
ou lucros como complemento fixo de remuneração.
Encerrar o contrato de trabalho por uma forma
que não reflete o que aconteceu.
Documentos que contam histórias diferentes,
com contrato social, acordo e folha desalinhados.
Próximo passo
A relação de trabalho de quem vira sócio depende da função, da participação e das regras que a sociedade já tem. No diagnóstico, esses pontos são mapeados antes de qualquer documento ser escrito.
Este conteúdo é informativo e reflete a legislação vigente na data de atualização. Ele não substitui a análise da situação concreta de cada sociedade.
Perguntas frequentes
Pode. Nenhuma lei impede que a mesma pessoa seja sócia e empregada. O que decide é a realidade da relação: se há subordinação, pessoalidade, habitualidade e salário, o vínculo de emprego convive com a condição de sócio.
Se ele continua empregado, o FGTS continua sendo depositado sobre o salário. Se o contrato de trabalho é encerrado, o destino do saldo depende da forma de encerramento. Os lucros recebidos como sócio não entram na base do FGTS.
Não. Ele pode entrar como sócio e continuar empregado. Se passar a administrar a empresa, o contrato de trabalho pode ser suspenso ou encerrado, e a forma escolhida precisa refletir o que de fato aconteceu.
Há decisões que admitem, quando os requisitos da relação de emprego estão presentes. Mas, em regra, quem administra com poder de decisão atua como dono, e não como empregado. A análise depende dos fatos.
O trabalho do sócio na empresa é remunerado pelo pró-labore, e o capital, pelos lucros. Para a previdência, o sócio que recebe remuneração pelo trabalho é contribuinte individual. A forma de equilibrar as verbas deve ser definida com o contador.
Pela Súmula 269 do TST, o contrato de trabalho fica suspenso durante o mandato, e esse tempo não conta como tempo de serviço, salvo se permanecer a subordinação jurídica típica do emprego.
Pode, se funcionar como parte do pagamento pelo trabalho, por exemplo em troca de salário menor ou com lucros pagos em valores fixos, todo mês. Participação não substitui salário.
Pode, e os tribunais decidem conforme a prova. O vínculo já foi reconhecido quando a sociedade mascarava uma relação subordinada, e negado quando o sócio participava das decisões e dividia os resultados como dono.
Como empregado, pode, pelas regras da CLT. A participação societária segue outra lógica: continua com ele, a menos que o acordo de sócios preveja a recompra em caso de desligamento. Por isso, as duas relações precisam de regras coerentes entre si.
Fontes
- Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-Lei 5.452/1943), texto compilado: arts. 3º, 9º e 484-A.
- Lei 8.036/1990 (FGTS), texto consolidado: art. 16.
- TST, Súmula 269: diretor eleito que era empregado.
Gabriel Serafin