Em resumo
No plano de matching shares, o executivo investe recursos próprios na compra de ações da empresa e, se mantiver essas ações e permanecer pelo período definido, recebe da empresa ações adicionais em contrapartida, numa proporção fixada no plano. A parte comprada tende a seguir a lógica de investimento; a contrapartida, entregue sem pagamento, é a que mais se aproxima da leitura de remuneração.
Três perguntas sobre o plano de matching
Pergunta 1 de 3
A sua empresa tem, ou avalia criar, um plano em que executivos compram ações e recebem outras em contrapartida?
O nome vem do inglês: to match é igualar, corresponder. Para cada ação que o executivo compra e segura, a empresa corresponde com outra, ou com uma fração dela. É um formato de incentivo de longo prazo que exige do executivo o que os outros não exigem: colocar o próprio dinheiro na empresa.
Este artigo explica o funcionamento, a estrutura jurídica e os riscos do plano. A comparação com os demais formatos de incentivo está em incentivo de longo prazo, e a montagem de planos de ações em plano de stock options. Se você quer avaliar um plano assim para a sua empresa, veja como funciona o trabalho de vesting e partnership.
Como o plano funciona
A mecânica tem quatro etapas:
- 1
Adesão
O executivo decide participar e define quanto vai investir, dentro dos limites do plano.
- 2
Compra
Ele compra ações da empresa com recursos próprios, muitas vezes usando parte do bônus ou da participação nos resultados do ano.
- 3
Carência
Durante um período definido, ele precisa manter as ações compradas e continuar na empresa.
- 4
Contrapartida
Cumpridas as condições, a empresa entrega as ações de contrapartida, na proporção prevista no plano.
Se o executivo vender as ações compradas antes do fim da carência, ou sair da empresa em condições que o plano considere de perda, ele perde a contrapartida, total ou parcialmente. As ações compradas continuam dele: foram pagas com o seu dinheiro.
Um exemplo em números
Os números abaixo são hipotéticos e servem só para mostrar a mecânica. Não representam proporção ou prazo recomendados.
Um diretor usa R$ 100 mil do bônus anual para comprar mil ações da empresa, a R$ 100 cada. O plano prevê contrapartida de uma ação para cada ação comprada, depois de três anos de carência.
Três anos depois, ele ainda tem as mil ações e continua na empresa. Recebe mais mil ações de contrapartida. Se cada ação valer R$ 130 nessa data, a contrapartida vale R$ 130 mil, e a posição total dele passa a ser de duas mil ações, das quais só a metade custou dinheiro.
Se ele tivesse vendido as ações compradas no segundo ano, teria perdido a contrapartida inteira.
Por que as empresas usam o matching
Alinhamento real. O executivo não recebe só um direito futuro: ele coloca dinheiro próprio em risco, ao lado dos acionistas. É o que o mercado chama de ter a própria pele em jogo.
Retenção. A contrapartida só vem depois da carência, e perder o emprego ou vender as ações antes significa perder o que foi prometido.
Conversão do bônus em participação. O plano transforma parte da remuneração variável de curto prazo em participação de longo prazo, por escolha do executivo.
Seleção. Como exige investimento, o plano atrai quem acredita na empresa. Executivos que não aderem também estão dando uma informação.
A estrutura jurídica na sociedade anônima
O matching é um formato mais usado em sociedades anônimas, e duas perguntas definem a estrutura.
De onde vêm as ações compradas. Na companhia aberta, a compra costuma ser feita no mercado. Na companhia fechada, as ações precisam vir de algum lugar: da própria companhia, de ações em tesouraria ou de acionistas que vendem. O preço precisa de critério, porque não há mercado.
De onde vêm as ações de contrapartida. Como são entregues sem pagamento, normalmente saem de ações que a companhia mantém em tesouraria. A aquisição das próprias ações para permanência em tesouraria segue as condições da Lei das S.A., que a limita ao valor do saldo de lucros ou reservas, exceto a legal, sem diminuição do capital social (art. 30, § 1º). Nas companhias abertas, há ainda as normas da CVM sobre negociação das próprias ações.
O plano, a entrega das ações e o encaixe na remuneração dos administradores seguem a governança da companhia: a assembleia fixa o montante global ou individual da remuneração dos administradores, inclusive benefícios de qualquer natureza (art. 152 da Lei das S.A.).
Natureza e riscos: as duas partes do plano
O matching combina, num só plano, duas coisas que o Fisco e a Justiça do Trabalho tendem a ler de formas diferentes.
A parte comprada. O executivo decide investir, paga com recursos próprios e corre o risco de a ação se desvalorizar. Reúne os três elementos que o STJ considerou para reconhecer a natureza mercantil de planos de ações no imposto de renda (Tema 1226): preço, adesão voluntária e risco. A tendência é que siga a lógica de investimento, com imposto sobre o ganho de capital na venda.
A contrapartida. É entregue sem pagamento, como recompensa por manter as ações e permanecer na empresa. Falta a onerosidade. A leitura mais provável é a de remuneração, com imposto de renda na tabela progressiva no momento da entrega e risco de contribuição previdenciária e reflexos trabalhistas.
Não localizei tese específica sobre matching shares nos tribunais superiores. Na esfera administrativa, o CARF costuma analisar planos de ações caso a caso, e ganhos subsidiados pela empresa, com vantagem certa para o beneficiário, são o tipo de característica que aponta para a natureza remuneratória. A contribuição previdenciária sobre planos de ações ainda aguarda o Tema 1379 do STJ. O quadro geral está em tributação de stock options, e a leitura trabalhista em stock options e salário.
Como o desenho afeta os riscos
Alguns pontos do desenho pesam na leitura da contrapartida:
Adesão realmente voluntária,
sem pressão para participar e sem consequência para quem não adere.
Risco sobre as duas partes,
com restrições de venda também sobre as ações de contrapartida por um período.
Critério de proporção fixado no plano,
e não negociado caso a caso.
Investimento com recursos do executivo,
e não com valores adiantados pela empresa.
Separação do salário,
sem que o plano substitua parte da remuneração combinada.
Esses cuidados não transformam a contrapartida em investimento, porque ela continua sendo entregue sem pagamento. Mas reduzem os sinais de alerta e mostram que o plano é, de fato, um programa de coinvestimento. Para a parte que tende a ser remuneração, a provisão dos tributos e encargos correspondentes é uma decisão de prudência.
Companhia aberta e companhia fechada
O plano funciona de forma diferente conforme a companhia tenha ou não ações negociadas em bolsa.
Na companhia aberta, o preço de compra é o de mercado, a liquidez existe e o valor da contrapartida é conhecido a cada dia. Em compensação, o executivo precisa respeitar as regras de negociação aplicáveis a administradores e pessoas com acesso a informação privilegiada, inclusive os períodos em que a negociação é vedada.
Na companhia fechada, não há preço de mercado. O plano precisa de um critério de preço para a compra, a contrapartida tem valor estimado, e a liquidez depende de uma venda da empresa, de uma recompra prevista no plano ou de uma abertura de capital. O executivo que adere passa a ser acionista e deve aderir ao acordo de acionistas.
O que o executivo deve avaliar antes de aderir
Para quem recebe o convite, a decisão envolve dinheiro próprio. Alguns pontos pesam:
concentração:
investir na empresa em que se trabalha concentra, no mesmo lugar, o emprego e parte do patrimônio;
liquidez:
em companhia fechada, o dinheiro pode ficar imobilizado por anos;
tributação da contrapartida:
a parte recebida sem pagamento tende a ser tributada como rendimento, e o imposto pode ser devido antes de qualquer venda;
condições de saída:
o que acontece com a contrapartida se a relação terminar antes do fim da carência.
A decisão é pessoal e financeira. O plano deve dar ao executivo as informações para tomá-la com clareza, sem pressão para aderir.
O uso do bônus ou da PLR na compra
É comum que o executivo use parte do bônus ou da participação nos resultados para comprar as ações. Isso é possível, desde que a decisão de investir seja dele e os valores sejam pagos a ele antes da compra, com o tratamento próprio de cada verba.
Obrigar o executivo a converter a PLR em ações, ou reter o valor para a compra sem a escolha dele, mistura dois instrumentos e enfraquece a voluntariedade do plano. As regras da PLR estão em PLR ou participação societária.
E na limitada?
O matching em quotas é possível em tese, mas enfrenta obstáculos. A entrega gratuita de quotas de contrapartida tende a ser lida como remuneração, e a movimentação de quotas exige alteração do contrato social a cada entrega. Na prática, limitadas que querem o efeito do matching costumam usar uma versão em dinheiro: o executivo compra quotas, e a contrapartida é um pagamento atrelado ao valor da empresa, como nas phantom shares na Ltda.
As cláusulas essenciais
Limites de investimento:
mínimo e máximo por executivo, e de onde podem vir os recursos.
Proporção da contrapartida:
quantas ações a empresa entrega para cada ação comprada e mantida.
Carência:
o período em que as ações compradas precisam ser mantidas.
Venda antecipada:
o que acontece se o executivo vender parte das ações compradas antes do fim.
Saída:
o tratamento em cada tipo de desligamento, na lógica de good leaver e bad leaver.
Mudança de controle:
se a contrapartida acelera na venda da empresa, tema de aceleração de vesting.
Dividendos:
se as ações compradas recebem dividendos durante a carência, o que normalmente acontece, porque são do executivo.
Restrições de venda:
prazos de indisponibilidade depois da entrega, como o lock-up.
Erros comuns
Compra forçada:
exigir adesão ou converter o bônus em ações sem escolha do executivo.
Empréstimo da empresa para a compra:
o executivo investe com dinheiro adiantado pela própria companhia, o que elimina o risco.
Contrapartida sem restrição:
ações entregues e vendidas no dia seguinte, sem qualquer vínculo com o longo prazo.
Proporções negociadas caso a caso,
que viram comparação entre executivos.
Ignorar a natureza da contrapartida
e não provisionar os tributos e encargos correspondentes.
Esquecer a mudança de controle,
deixando a solução para o comprador.
Próximo passo
Um plano de matching depende do tipo societário, da origem das ações e do custo que a empresa aceita suportar. No diagnóstico, esses pontos são mapeados antes de qualquer documento ser escrito.
Este conteúdo é informativo e reflete a legislação vigente na data de atualização. Ele não substitui a análise da situação concreta de cada sociedade.
Perguntas frequentes
Em regra, você perde a contrapartida correspondente às ações vendidas, total ou proporcionalmente, conforme o plano. As ações compradas continuam sendo suas: foram pagas com o seu dinheiro.
É a parte do plano que mais se aproxima da leitura de remuneração, porque é entregue sem pagamento. A parte comprada pelo executivo, com recursos próprios e risco, tende a seguir a lógica de investimento. Não há tese específica sobre matching shares nos tribunais superiores.
Não existe proporção padrão. A proporção, a carência e as condições são definidas no plano, conforme o objetivo da empresa e o custo que ela aceita suportar.
Pode, se o plano permitir e se a decisão de investir for sua. Os valores devem ser pagos a você antes, com o tratamento próprio de cada verba. Obrigar a conversão enfraquece a voluntariedade do plano.
Em tese, sim, mas a entrega gratuita de quotas tende a ser lida como remuneração e exige alteração do contrato social a cada entrega. Uma alternativa frequente é combinar a compra de quotas com uma contrapartida em dinheiro atrelada ao valor da empresa.
Depende do plano. A contrapartida pode acelerar, total ou parcialmente, ser paga em dinheiro ou ser cancelada, conforme as regras de mudança de controle. Sem regra, a solução fica com a negociação da venda.
Em regra, sim: as ações compradas são do executivo desde a compra, com os direitos correspondentes, inclusive dividendos. O plano pode tratar de forma diferente as ações de contrapartida, que só são entregues depois da carência.
Para diretores estatutários, a contrapartida tende a integrar a remuneração, e a assembleia fixa o montante global ou individual da remuneração dos administradores, inclusive benefícios de qualquer natureza (art. 152 da Lei das S.A.). Por isso, o plano precisa caber no que a assembleia aprovou.
Fontes
- Lei 6.404/1976 (Lei das S.A.): arts. 30, § 1º, 152 e 168, § 3º.
- STJ: Primeira Seção define que o stock option plan tem caráter mercantil (Tema 1.226, REsp 2.069.644/SP, julgado em 11/9/2024).
- STJ, Tema 1.379 (REsp 2.070.059/SP e 2.199.631/SP): contribuição previdenciária no exercício das opções, afetado em 2025, sem tese fixada em 25/09/2026.
Gabriel Serafin