Em resumo
O preço de exercício é o valor que o beneficiário paga por ação quando exerce a opção. Ele define quanto a pessoa ganha se a empresa se valorizar, sustenta a onerosidade que caracteriza o plano como mercantil e forma o custo de aquisição usado no cálculo do imposto na venda. O plano precisa escrever o critério que define esse preço, quem o aplica e em que data. O cálculo do valor da empresa, quando necessário, é trabalho de assessor financeiro.
Três perguntas sobre o plano de stock options
Pergunta 1 de 3
A sua empresa tem, ou pretende criar, um plano de stock options para pessoas da equipe?
Poucos números de um plano de opções geram tanta discussão quanto este. Um preço alto demais tira o atrativo do plano. Um preço baixo demais pode transformar o plano em bônus aos olhos do Fisco e da Justiça do Trabalho. E um preço sem critério escrito vira disputa no primeiro evento em que muito dinheiro está em jogo.
Este artigo trata do critério de preço: as opções disponíveis, os riscos de cada uma e como escrever a regra para que ela funcione anos depois. A montagem do plano está em plano de stock options. Se você quer definir o critério de preço do plano da sua empresa, veja como funciona o trabalho de vesting e partnership.
As três funções do preço
Define o ganho. O beneficiário ganha a diferença entre o valor das ações e o preço que pagou. Se as ações passarem a valer menos que o preço, a opção deixa de fazer sentido e não é exercida.
Sustenta a natureza do plano. No Tema 1226, o STJ reconheceu a natureza mercantil do plano de opção de compra de ações apoiado em três elementos, e o primeiro deles é a onerosidade: o beneficiário paga um preço real. Um preço simbólico enfraquece essa base.
Forma o custo de aquisição. No plano mercantil, o preço pago no exercício é o custo das ações para o cálculo do ganho de capital na venda. O detalhe tributário está em tributação de stock options.
Os critérios possíveis
| Critério | Como funciona | Onde costuma ser usado | Ponto de atenção |
|---|---|---|---|
| Valor de mercado | Cotação das ações, normalmente uma média de um período antes da outorga | Companhias abertas | Escolher o período de referência e evitar distorções pontuais |
| Preço da última rodada | Preço pago pelos investidores na rodada mais recente | Startups com rodadas recentes | As ações do investidor costumam ter direitos que as ações comuns não têm |
| Valor patrimonial | Patrimônio líquido dividido pelo número de ações ou quotas | Limitadas e empresas sem rodadas | Pode ficar muito abaixo do valor econômico da empresa |
| Múltiplo de resultado | Um múltiplo aplicado ao resultado operacional ou à receita | Empresas com resultado estável | O múltiplo precisa estar definido e justificado |
| Laudo independente | Avaliação feita por assessor financeiro na data da outorga | Qualquer empresa, especialmente fechadas | Definir quem escolhe e quem paga o avaliador |
| Fórmula contratual | Regra de cálculo aplicada automaticamente na data definida | Planos com muitas outorgas | A fórmula precisa resistir a mudanças no negócio |
Nenhum critério é superior em abstrato. O adequado é o que a empresa consegue aplicar de forma consistente, com dados disponíveis e sem depender da interpretação de uma das partes. A lógica de avaliação e de diluição está em valuation e cap table.
O preço da última rodada e as ações do investidor
Em startups, é comum usar o preço da última rodada como referência. O cuidado é que o investidor normalmente compra ações com direitos especiais, como preferência no recebimento numa venda da empresa. Essas ações valem mais do que as ações comuns que o beneficiário vai receber no exercício. Os direitos negociados em cada rodada aparecem no term sheet.
Usar o preço do investidor como preço de exercício das opções sobre ações comuns pode tornar o plano pouco atrativo. Usar um preço menor exige uma justificativa escrita: por exemplo, uma avaliação que considere a diferença de direitos entre as classes. Em qualquer caso, o critério escolhido deve estar documentado na data da outorga.
Desconto: até onde ir
O plano pode oferecer um preço com desconto sobre a referência escolhida. É uma forma legítima de tornar a oferta atrativa, desde que o preço continue sendo real.
O limite não está escrito em lei. Ele aparece na análise da natureza do plano: um desconto tão grande que elimine o risco do beneficiário, assegurando-lhe ganho certo, aproxima o plano de remuneração. Na esfera administrativa, o CARF costuma analisar os planos caso a caso, e ações subsidiadas pela empresa, com ganho certo para o beneficiário, são o tipo de característica que aponta para a natureza remuneratória. A leitura trabalhista e previdenciária está em stock options e salário.
Três perguntas ajudam a calibrar o desconto:
- 1
O beneficiário ainda pode perder dinheiro se a empresa se desvalorizar?
- 2
O desconto tem uma justificativa que não seja simplesmente pagar pelo trabalho?
- 3
O desconto é o mesmo para todos os beneficiários na mesma situação?
Preço zero e preço simbólico
Um preço de um centavo por ação, ou a entrega das ações sem preço, elimina a onerosidade e o risco do beneficiário. Nesse desenho, o plano deixa de ser uma opção de compra e passa a funcionar como a entrega de ações restritas, com a leitura de remuneração que costuma acompanhá-las.
Se a empresa quer, de fato, entregar ações sem custo ao beneficiário, é mais coerente chamar o instrumento pelo nome e provisionar os tributos e encargos correspondentes do que manter um preço simbólico que não se sustenta.
Um exemplo com números
Os números abaixo são hipotéticos e servem só para mostrar a mecânica.
Uma startup fechou uma rodada em que o investidor pagou R$ 10 por ação preferencial. Um laudo independente, considerando que as ações ordinárias não têm os mesmos direitos, avalia cada ação ordinária em R$ 6. O plano fixa o preço de exercício em R$ 6, sem desconto.
Se a empresa for vendida a R$ 20 por ação, o beneficiário ganha R$ 14 por opção exercida: paga R$ 6 e recebe R$ 20.
Se a empresa for vendida a R$ 4 por ação, a opção fica fora do dinheiro: exercer significaria pagar R$ 6 por algo que vale R$ 4. O beneficiário não exerce e não perde nada além da própria opção. Se já tivesse exercido antes, teria perdido R$ 2 por ação.
Se o preço fosse de um centavo, o beneficiário ganharia quase o valor inteiro da ação em qualquer cenário, sem risco. É esse desenho que aproxima o plano de remuneração.
O exemplo mostra por que o preço real importa: é ele que faz o beneficiário correr o mesmo risco de quem investe na empresa.
Companhia aberta, companhia fechada e limitada
Na companhia aberta, o valor de mercado existe e é público. O critério costuma ser uma média das cotações de um período anterior à outorga, para evitar que o preço dependa de um dia atípico. A companhia também precisa observar as regras de divulgação da CVM sobre remuneração baseada em ações.
Na companhia fechada, não há cotação. O preço depende de uma rodada recente, de um laudo ou de uma fórmula, e a documentação da escolha na data da outorga é o que sustenta o critério depois.
Na limitada, o valor patrimonial é o ponto de partida mais comum, por ser simples e verificável, mas pode ficar muito abaixo do valor econômico da empresa. Um múltiplo de resultado ou um laudo refletem com mais precisão o negócio, com mais custo e mais complexidade. O desenho do plano na limitada está em stock options na Ltda.
Beneficiários que entram depois
Num plano que dura anos, quem entra mais tarde costuma receber opções com preço de exercício mais alto, porque a empresa já vale mais. Isso é coerente: o ganho de quem entra depois vem da valorização que acontecer a partir da entrada dele.
Mas a diferença precisa ser explicada. Duas pessoas com a mesma função e preços de exercício muito diferentes tendem a comparar os planos. Critérios escritos, aplicados da mesma forma a cada nova outorga, e uma comunicação clara sobre a lógica do preço evitam que a diferença seja lida como injustiça.
O que o beneficiário deve perguntar sobre o preço
Do lado de quem recebe, o preço de exercício merece quatro perguntas:
- 1
Qual critério definiu o preço, e em que data?
- 2
As ações que vou receber têm os mesmos direitos das ações usadas como referência?
- 3
O que acontece com o preço em desdobramentos, grupamentos e reorganizações?
- 4
Como o preço entra no cálculo do que recebo numa venda da empresa?
A avaliação de uma proposta, do lado de quem recebe, está em proposta de vesting.
Quem define, e quando
O regulamento do plano deve dizer:
qual critério se aplica
a cada outorga;
quem o aplica:
o conselho de administração, a diretoria ou os sócios, conforme a estrutura;
em que data o preço é fixado:
normalmente a data da outorga;
como a decisão é documentada:
ata, laudo ou memória de cálculo arquivada.
Um preço fixado na data da outorga, com o critério aplicado e documentado naquele dia, é muito mais difícil de contestar do que um preço decidido depois, quando todos já sabem quanto a empresa passou a valer.
Os ajustes do preço ao longo do tempo
Entre a outorga e o exercício, a empresa pode passar por eventos que alteram o valor por ação sem alterar o valor da empresa. O plano precisa prever como o preço e a quantidade de opções se ajustam em cada caso:
desdobramentos e grupamentos,
que multiplicam ou dividem o número de ações;
bonificações em ações,
que aumentam o número de ações sem novo aporte;
dividendos extraordinários,
que reduzem o valor por ação;
reorganizações societárias,
como incorporações, cisões e trocas de ações.
Sem regra de ajuste, um desdobramento pode transformar uma opção valiosa numa opção sem sentido, ou o contrário.
Opções fora do dinheiro e reprecificação
Quando o valor das ações cai abaixo do preço de exercício, a opção fica fora do dinheiro: exercer significaria pagar mais do que as ações valem. O plano perde a força de retenção exatamente no momento em que a empresa mais precisa do time.
Algumas empresas respondem com a reprecificação: a redução do preço de exercício das opções já outorgadas. É uma decisão sensível. Na sociedade anônima, alterações no plano seguem a governança que o aprovou, e os acionistas podem questionar uma transferência de valor aos beneficiários. Além disso, a reprecificação pode afetar a leitura da natureza do plano. Qualquer ajuste desse tipo deve ser decidido pelos órgãos competentes, com justificativa e registro.
Preço de exercício e o caixa do beneficiário
Um preço de exercício alto não é só menos atrativo: ele pode impedir o exercício. Quando o beneficiário sai da empresa e o plano dá um prazo curto para exercer, ele precisa ter o dinheiro do preço disponível naquele momento, muitas vezes sem perspectiva de vender as ações.
Por isso, o desenho do preço conversa com outras regras do plano: o prazo para exercer depois da saída, a possibilidade de exercício parcial e as formas de exercício sem desembolso num evento de liquidez. Um plano coerente considera o preço junto com essas regras. Os fatores da decisão de exercer estão em quando exercer stock options.
Preço em moeda estrangeira
Quando as opções são de uma holding no exterior, o preço costuma ser fixado em moeda estrangeira. Para o beneficiário no Brasil, isso significa câmbio e remessa no exercício, e um custo de aquisição que precisa ser convertido para reais. O tema está em stock options de empresa estrangeira.
O preço na venda da empresa
Numa venda, o preço de exercício define quanto cada beneficiário recebe. Se as opções forem pagas em dinheiro, o valor costuma ser a diferença entre o preço da venda por ação e o preço de exercício. Se forem exercidas no fechamento, o beneficiário paga o preço e recebe a parte que lhe cabe da venda.
É nesse momento que um critério mal escrito se transforma em disputa. Nos Estados Unidos, a disputa entre fundadores do Tinder e o grupo controlador sobre a avaliação usada para as opções terminou, em 2021, num acordo de US$ 441 milhões. A lição vale para qualquer tamanho de empresa: o critério que define quanto valem as ações, em cada evento, precisa estar no plano, com o nome de quem aplica a regra e a data de referência. A aceleração na venda está em aceleração de vesting.
Como escrever o critério para evitar disputa
- 1
Escolha um critério que a empresa consiga aplicar com dados disponíveis.
- 2
Defina a data de referência, normalmente a data da outorga.
- 3
Defina quem aplica o critério e como a decisão é documentada.
- 4
Se houver laudo, diga quem escolhe o avaliador, quem paga e em quanto tempo.
- 5
Preveja os ajustes por desdobramentos, grupamentos, bonificações, dividendos extraordinários e reorganizações.
- 6
Preveja um mecanismo de solução de divergências, como a revisão por avaliador independente ou a arbitragem.
- 7
Aplique o mesmo critério a todos os beneficiários na mesma situação.
Erros comuns
Preço sem critério escrito,
decidido caso a caso.
Preço fixado depois da outorga,
quando o valor da empresa já mudou.
Preço simbólico,
que enfraquece a natureza mercantil do plano.
Usar o preço do investidor sem considerar a diferença de direitos
entre as classes de ações.
Não prever ajustes
por eventos societários.
Não prever solução de divergências,
deixando a venda da empresa para uma discussão sem regra.
Próximo passo
O critério de preço depende do tipo societário, do histórico de rodadas e das regras que a sociedade já tem. No diagnóstico, esses pontos são mapeados antes de qualquer documento ser escrito.
Este conteúdo é informativo e reflete a legislação vigente na data de atualização. Ele não substitui a análise da situação concreta de cada sociedade.
Perguntas frequentes
Não necessariamente. O plano pode usar valor de mercado, preço da última rodada, valor patrimonial, múltiplo de resultado, laudo ou fórmula, com ou sem desconto. O que importa é que o preço seja real e siga um critério escrito e documentado.
Pode, desde que o preço continue real e o beneficiário mantenha o risco de perder se a empresa se desvalorizar. Descontos que asseguram ganho certo aproximam o plano de remuneração.
O plano perde a onerosidade que sustenta a natureza mercantil e passa a funcionar como entrega de ações sem custo, com a leitura de remuneração que costuma acompanhar esse formato.
O órgão indicado no regulamento do plano, como o conselho de administração, a diretoria ou os sócios, aplicando o critério previsto, normalmente na data da outorga. O cálculo do valor da empresa, quando necessário, é trabalho de assessor financeiro.
Pode ser ajustado por eventos previstos no plano, como desdobramentos e grupamentos. A redução do preço de opções já outorgadas, chamada de reprecificação, é uma decisão sensível, que deve seguir a governança do plano e ser justificada.
Afeta. No plano mercantil, o preço pago é o custo de aquisição das ações para o cálculo do ganho de capital na venda. E um preço real é parte do que sustenta a natureza mercantil do plano.
Costuma ser fixado em moeda estrangeira. O beneficiário no Brasil precisa fazer câmbio e remessa no exercício, e o custo de aquisição é convertido para reais.
Ficam fora do dinheiro: exercê-las significaria pagar mais do que as ações valem. Elas continuam válidas até o prazo final, e podem voltar a fazer sentido se a empresa se valorizar.
Pode, e costuma ser, quando as outorgas acontecem em momentos diferentes e o valor da empresa mudou. O que importa é que o mesmo critério seja aplicado a todos os beneficiários na mesma situação, na data de cada outorga.
Gabriel Serafin