Em resumo
Numa rodada de investimento, o plano de opções entra na mesa por três caminhos: na negociação do tamanho e do momento de criação do pool, no cap table totalmente diluído que define o preço por ação e na diligência, que confere se as outorgas foram feitas corretamente. O investidor vai pedir o regulamento, as aprovações, a lista de outorgas, as promessas feitas fora do plano e as regras de vesting, inclusive dos fundadores. Chegar com tudo organizado muda a posição de negociação.
Três perguntas sobre a rodada de investimento
Pergunta 1 de 3
A sua empresa pretende captar uma rodada de investimento nos próximos meses?
Muitos fundadores descobrem o próprio plano de opções durante a rodada. Promessas feitas por e-mail aparecem como participação em disputa, outorgas sem aprovação viram pendências para o fechamento, e o tamanho do pool, negociado sem uma conta, dilui mais do que precisaria. O caminho recomendado é montar o programa antes da entrada do investidor, por uma razão simples: depois, a negociação acontece sob pressão.
Este artigo mostra o que o investidor costuma pedir e como se preparar. A montagem do plano está em plano de stock options, e o dimensionamento do pool em pool de opções. Se você vai captar e quer organizar o plano antes, veja como funciona o trabalho de vesting e partnership.
Por que o investidor se importa com o plano
O investidor compra uma participação na empresa por um preço. Para saber quanto está comprando, ele precisa saber quantas ações existem e quantas podem vir a existir. O plano de opções é uma dessas fontes de ações futuras.
Além disso, o investidor está investindo nas pessoas. Um plano bem desenhado mostra que a empresa consegue atrair e reter o time de que vai precisar para usar o dinheiro da rodada. Um plano desorganizado sinaliza risco: disputas com beneficiários, passivos tributários e trabalhistas e dificuldade de contratar depois.
O cap table totalmente diluído
A primeira coisa que o investidor vai olhar é o quadro de acionistas totalmente diluído: todas as ações emitidas, mais as opções outorgadas, a reserva ainda não outorgada do pool, instrumentos conversíveis e qualquer outro direito a ações futuras.
O preço por ação da rodada costuma ser calculado sobre esse quadro. Por isso, cada opção prometida, formal ou informalmente, afeta o preço. Promessas que não aparecem no quadro, e surgem depois, são tratadas como problema, porque mudam a conta que o investidor fez. A lógica está em valuation e cap table, e a diluição em etapas em diluição por stock options.
O pool: tamanho e momento
O investidor costuma pedir que o pool seja criado ou ampliado antes da rodada, dimensionado para as contratações até a próxima. Como o pool criado antes da rodada é calculado sobre a empresa já com ele, toda a diluição do pool fica com quem já estava no quadro, e não com o novo investidor.
Dois pontos de negociação:
o tamanho:
o argumento mais forte dos fundadores é um plano de contratações realista, com as funções, o momento de cada contratação e a oferta necessária para cada uma;
o momento:
criar o pool antes ou depois da rodada muda quem suporta a diluição.
Os termos da rodada aparecem no term sheet.
A conta das contratações: um exemplo
Os números abaixo são hipotéticos e servem só para mostrar a lógica, sem sugerir tamanhos.
Uma startup vai captar e planeja contratar, até a próxima rodada, um diretor de tecnologia, um diretor comercial, três pessoas de engenharia e uma de produto. Para cada função, os fundadores estimam a participação necessária para uma oferta competitiva, somam as outorgas já prometidas ao time atual e acrescentam uma margem para contratações não previstas.
| Componente | Participação estimada sobre o capital totalmente diluído |
|---|---|
| Diretor de tecnologia | 2% |
| Diretor comercial | 1,5% |
| Três pessoas de engenharia | 1,5% no total |
| Uma pessoa de produto | 0,5% |
| Reforços para o time atual | 1% |
| Margem para imprevistos | 1,5% |
| Total | 8% |
Com uma conta assim, os fundadores negociam o pool a partir de necessidades concretas. Sem ela, a negociação costuma partir do percentual que o investidor propõe.
Planos de limitada que viram sociedade anônima na rodada
Muitas startups captam a primeira rodada relevante ainda como limitada, e o investidor pede a transformação em sociedade anônima. Nesse momento, as opções de quotas, formais ou informais, precisam ser migradas para um plano de opções de ações, com capital autorizado no estatuto e plano aprovado em assembleia.
A migração precisa preservar o que cada beneficiário tinha, com a correspondência entre quotas e ações, o preço de exercício ajustado e o cronograma mantido. É também a oportunidade de corrigir o que estava informal. Os critérios da transformação estão em transformação societária.
Como consolidar as promessas
Promessas feitas fora do plano podem ser tratadas de três formas: confirmadas como estavam, com a formalização em contrato de outorga; migradas para as regras gerais do plano, com o reconhecimento do que foi prometido; ou renegociadas, com transparência e uma alternativa concreta. O que não funciona é deixar que o investidor as descubra. O tema está em promessa de participação.
O que a diligência vai pedir
Na diligência, o investidor confere se o plano existe de verdade e se foi aplicado corretamente. A lista costuma incluir:
o regulamento do plano
e a aprovação dele pelos órgãos competentes;
na sociedade anônima,
o capital autorizado no estatuto e a aprovação do plano pela assembleia;
a lista de outorgas,
com beneficiário, quantidade, preço, data, cronograma e situação;
os contratos de outorga
assinados;
as aprovações de cada outorga,
pelo órgão indicado no plano;
os exercícios realizados,
com os comprovantes de pagamento e as alterações correspondentes;
as promessas feitas fora do plano,
em e-mails, propostas de emprego ou conversas;
o tratamento contábil e tributário
das outorgas.
A preparação para a diligência em geral está em due diligence societária.
Quando os beneficiários ainda não assinaram nada
É comum que a empresa tenha um plano aprovado, mas beneficiários que nunca assinaram os contratos de outorga, ou contratos assinados sem as condições completas. Para a diligência, a outorga só existe de verdade quando o contrato está assinado, com quantidade, preço, cronograma e condições.
A regularização antes da rodada envolve assinar os contratos pendentes, com as datas e os preços que correspondem à outorga original, e registrar as aprovações que faltarem. Datas e preços ajustados depois, para parecer que tudo foi feito no tempo certo, criam um problema maior do que o que resolvem.
Os sinais de alerta que o investidor procura
Promessas fora do plano. Participações prometidas por e-mail ou em propostas de emprego, sem instrumento, aparecem como compromissos a quantificar e resolver antes do fechamento. O tema está em promessa de participação.
Outorgas acima da reserva. A soma das opções outorgadas ultrapassa o que o plano ou o capital autorizado permite.
Outorgas sem aprovação. Opções concedidas sem a aprovação do órgão competente, que podem ser questionadas.
Planos com risco de natureza remuneratória. Outorgas gratuitas, preços simbólicos ou adesão obrigatória, que podem gerar passivos tributários e trabalhistas. A leitura da natureza dos planos está em stock options e salário.
Opções informais na limitada. Empresas limitadas com "opções" prometidas sem contrato de opção de compra de quotas, sem fonte definida para as quotas e sem compromisso dos sócios. O desenho correto está em stock options na Ltda.
O que o investidor vai querer sobre cada beneficiário
Para cada outorga, a diligência costuma pedir: o nome e a função do beneficiário, a relação com a empresa, se empregado, administrador ou prestador, a quantidade de opções, o preço de exercício e o critério dele, a data de outorga, o cronograma e a situação do vesting, as regras de saída e de aceleração e a aprovação correspondente. Um registro atualizado com esses dados encurta semanas de diligência.
O vesting dos fundadores
O investidor também vai olhar para a participação dos fundadores. É comum pedir que ela fique sujeita a vesting, porque o investimento é feito nas pessoas tanto quanto na empresa. Quando os fundadores não têm vesting, o investidor pode pedir a criação dele, às vezes com a reinicialização de parte do cronograma.
Ter o vesting dos fundadores já escrito, com regras de saída e de recompra, transforma essa conversa num ajuste, e não numa imposição. O desenho está em vesting reverso.
Aceleração e mudança de controle
O investidor vai conferir o que o plano prevê para uma venda da empresa. Aceleração total e automática para todos os beneficiários pode reduzir o valor da empresa para um futuro comprador, porque o time fica livre para sair depois da venda. Muitos investidores preferem aceleração que dependa também do desligamento depois da venda. O tema está em aceleração de vesting.
Os direitos que o investidor vai negociar sobre o plano
Além do tamanho do pool, os acordos de investimento costumam trazer direitos do investidor sobre o plano:
aprovação de alterações
no plano, como aumento da reserva ou mudança de regras;
aprovação de outorgas relevantes,
acima de determinado tamanho, ou a executivos específicos;
informação periódica
sobre as outorgas, os exercícios e as saídas;
regras para a recomposição do pool
nas rodadas seguintes.
São direitos legítimos, que precisam ser equilibrados com a necessidade de a gestão contratar com agilidade.
Quando a rodada exige holding no exterior
Algumas rodadas, principalmente com investidores estrangeiros, vêm acompanhadas da exigência de reorganizar a estrutura, com a criação de uma holding no exterior. Nesse caso, o plano de opções da empresa brasileira costuma ser substituído por um plano da holding, e as opções dos beneficiários precisam ser migradas.
A migração exige cuidado com o que cada beneficiário tinha, com os efeitos tributários da troca e com a comunicação ao time. O tema da reorganização está em flip de startup, e a situação de quem passa a ter opções de uma holding estrangeira em stock options de empresa estrangeira.
Como se preparar, na ordem
- 1
Levante tudo o que foi prometido,
formal e informalmente, a quem e em quais termos.
- 2
Consolide as promessas
num plano formal, com regulamento, aprovações e contratos de outorga.
- 3
Monte o cap table totalmente diluído,
com todas as opções e instrumentos conversíveis.
- 4
Construa o plano de contratações
até a próxima rodada, para negociar o tamanho do pool.
- 5
Revise a natureza do plano:
preço real, adesão voluntária e risco.
- 6
Escreva o vesting dos fundadores,
se ainda não existir.
- 7
Organize a documentação
para a diligência: regulamento, aprovações, contratos, exercícios e registros.
- 8
Revise a contabilização
das outorgas, tema de contabilização de stock options.
O conteúdo do regulamento está em regulamento do plano de opções.
Depois da rodada
Fechada a rodada, o plano entra numa nova fase: os direitos negociados pelo investidor passam a valer, a reserva do pool precisa ser administrada com as aprovações previstas e a comunicação com o time precisa refletir as novas regras. É também o momento de revisar o regulamento, se a rodada trouxe mudanças, e de manter o registro das outorgas atualizado para a próxima rodada.
A comunicação ao time durante a rodada
Rodadas geram expectativa no time, principalmente em quem tem ou espera ter opções. Durante a negociação, a confidencialidade da operação limita o que pode ser dito. Depois do fechamento, vale explicar ao time o que muda: o tamanho do pool, as regras que passam a valer, o efeito da rodada sobre o valor e sobre a diluição das opções e os próximos passos do plano. Um time que entende o plano valoriza mais o que recebe.
Erros comuns
Descobrir as promessas durante a diligência
Negociar o pool sem plano de contratações
Outorgas sem aprovação
ou acima da reserva.
Preços simbólicos e outorgas gratuitas,
que criam passivos.
Deixar o vesting dos fundadores para o investidor definir
Migrar opções para uma holding estrangeira sem cuidar dos efeitos para os beneficiários
Próximo passo
A preparação do plano para uma rodada depende do que já foi prometido, do tipo societário e do calendário da captação. No diagnóstico, esses pontos são mapeados antes de qualquer documento ser escrito.
Este conteúdo é informativo e reflete a legislação vigente na data de atualização. Ele não substitui a análise da situação concreta de cada sociedade.
Perguntas frequentes
É comum o investidor pedir que o pool seja criado ou ampliado antes da rodada, dimensionado para as contratações até a próxima. O tamanho e o momento são negociáveis.
Porque o percentual do investidor é calculado sobre a empresa já com o pool. Toda a diluição do pool fica com quem já estava no quadro antes da rodada.
O regulamento e as aprovações, a lista de outorgas, os contratos, os exercícios, as promessas feitas fora do plano e o tratamento contábil e tributário das outorgas.
O investidor vai tratá-las como compromissos a quantificar e resolver antes do fechamento. O ideal é consolidá-las num plano formal antes da rodada.
Pode pedir, e é comum. Ter o vesting dos fundadores já escrito transforma a conversa num ajuste, e não numa imposição.
Os acordos de investimento costumam prever direitos do investidor, como aprovar alterações no plano, outorgas relevantes e a recomposição do pool. São direitos negociáveis, que precisam ser equilibrados com a agilidade da gestão.
O plano da empresa brasileira costuma ser substituído por um plano da holding, e as opções precisam ser migradas, com cuidado com os direitos de cada beneficiário, os efeitos tributários e a comunicação ao time.
Antes da rodada. Organizar durante a diligência significa negociar sob pressão, com promessas descobertas no último momento e prazos apertados.
Não. O pool é uma reserva para outorgas futuras. O investidor quer saber quanto já foi outorgado, quanto ainda está disponível e se o disponível é suficiente para as contratações até a próxima rodada.
Pode, se o acordo de investimento previr. É comum o investidor ter direito de aprovar outorgas acima de determinado tamanho ou a executivos específicos. O equilíbrio desses direitos com a agilidade da gestão é um ponto de negociação da rodada.
Afeta o preço por ação. Como o preço costuma ser calculado sobre o capital totalmente diluído, um pool maior, criado antes da rodada, reduz o preço por ação para os acionistas atuais, mesmo que o valor atribuído à empresa seja o mesmo.
É recomendável. Mesmo numa rodada pequena, o investidor vai querer ver regras claras para as outorgas. Um regulamento simples, aprovado pelos órgãos competentes, evita que cada outorga vire uma negociação e facilita as rodadas seguintes.
Fontes
- Lei 6.404/1976 (Lei das S.A.): art. 168, § 3º.
Gabriel Serafin